Terça-feira, Março 01, 2005

A récita

- Eu para ti não passo de um mero link adestrado.
- Tem juízo!
- Afirmo-te convicta de que caminho com serenidade crescente em terra de lava quente.
- Hã?!
- Estou segura que o caminho que tracei, pagando para ver, me conduzirá a um sofá em frente de um elevador.
- Compreendo.
- Podes compreender mas a última palavra será minha! Para sempre.

Isaura pegou na papelada e disse: «Eu só faço de blogger na récita se tu prometeres que acabas com esta porcaria do blogue.» Eu concordei mas, conforme calculais, fiz figas. Os blogues são como pitiríases versicolores. Há uma grande chance da micose voltar a aparecer, mesmo após um tratamento bem sucedido. «Prometo Isaurinha da minha vida. Para sempre.»

Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005

«Automóveis»?!

O Aurélio S. chegou à sala da pensão e anunciou: «hoje, ó bando de bajecas, vou ler um poema e espero não vir a gastar cera com os ruins defuntos que sois todo vós!» Levantei os olhos da jornalada e dei com o laivoso armado de livrito e atirei, porque não o podia evitar: «Ameaças a esta hora, mano Aurélio?». O Juvenal e o Pé Curto encolheram os ombros: «Se não for mais comprido que noite de Inverno. Se não for novena...» A Isaura achou bem, a Graciosa adorou, o Júlio continuou a dormir e pôs-se a jeito, a Maria do Carmo assomou e foi quem ditou a sentença: «ó homem, mete lá». Aurélio S. tossicou e ouviu-se então a coisa dita num lamento: «Automóveis» era o título, ao qual se seguiu o silêncio de actor antes de se sair com estas: «O carocha do solteirão amigo da família/ que nos levava em passeios devagar ao sábado,/ o morris do avô, já sem préstimo/ e atulhado de primos, o golf em que dominava/ o vento com o braço ao som dos nossos gostos/ unânimes, o rover em que me traíste.» E pronto, chegou ali e parou. Ele e nós que ninguém ousou sequer respirar antes de lhe dizer, eu, o Grego do costume: «sabes que podias ter sido traído num jaguar, porque agora tem motor ford. Uma pechincha!» pois era preciso quebrar o gelo e dar início ao momento crítico, caramba! «Isso é da tua lavra?» E foi vê-lo, ao bestunto da alma danada, a atirar-se para o cadeirão de orelhas: «Meu?! Meu?! Mas vocês viajam na maionese como este singular poeta?» Respirámos de alívio mas quando nos preparávamos para afinfar na carcaça porque merecia, o Aurélio fez-nos stop: «E donde este veio, amigos, há mais! Portai-vos com tino e sabereis a biografia do vate que eu nunca vos escondi um artista nem me afedorento com tão pouco, porque o que muito vos parece, olá se é pouco! É ou não genial?» O Juvenal franziu o sobrolho esquerdo e sentenciou: «isso é coisa escrita pelo mecânico do Graciano. Acertei?» Mas estava frio porque pela cara do Aurélio, o autor seria pessoa mais pesada: «Ná! Nada disso. Ignorantes. Já vi que o ambiente está para peras... Amanhã há mais.» e assim como entrou, saiu. A Isaura ainda gritou: «ouve lá. Anda cá. Isso é do tipo do capachinho, daquele gordo do stand dos usados?» Mas já lá ia o Aurélio S. a rir. Do Grego Gymnasión, curioso

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Quem sabe, sabe!

De escada e abaixo, o floreiro Portas vai que se nos ia chorando. Encenada a lágrima, tal e qual por ele mesmo ou pela mãe que o pôs, o intrujão acrescentou às ciências políticas o tema (fracturante) da diferença percentual entre um partido assim e o dele, completamente passado pelo tractor das eleições. «Tens cá uma finesse!» comentou a Isaurinha enquanto a gajada ria a bom rir, fosse pelo César das Neves, esse grande manquitola da cabeça, lido e relido em altas vozes, ou pelo televisor aos uivos por onde iam desfilando ursos e correndo as horas. Pela mesa passou o tinto e os peixinhos da horta e esta coisa conta-se sem perder oito tostões: num dos canais, uns maduros jeitosos divertiam-se a injectar posts em directo; momentos houve em que se pensou que o Rosas havia de chegar a vice-presidente da Assembleia; Jerónimo recuperava votos e a fé na voz e do alto da Toyota Hiace que é o PS, Sócrates nem se viu grego com o suor que lhe escorria das fontes agradecidas. Todo ele era a fonte que deixou o papo-seco ao professor Marcelo para a esquerda, para a direita e para a Judite de Sousa que insistiu sempre nesta particular distinção em detrimento dos dois Antónios. Mas, neste particular, quem marcou pontos foi o Jonas Pé Curto que se lembrou do óbvio: «atão este não é o mesmo professor da ‘ironia absoluta’?» Ergueu-se o coro, grego: «boa bucha!» Toca a enfiar a viola, a ironia, mais a absoluta graçola no saco que, de um momento para o outro, todos vimos Marcelo a entrar para o cano da mais cruel das realidades. A maioria absolutíssima do PS encheu a pensão de algazarra. Uns a favor, outros contra mas tudo sem ir no bote que é preciso, como é que os tipos dizem? Serenidade. Acima de tudo, muito disso e «passa aí dessa serenidade.» Ai nana! E eis-nos chegados à deixa rimada com Santana que foi um prazer ouvi-lo, sim senhores! Claro que agora, desde o caso do Juvenal vaticanista, dei em gritar pela alma de Deus (e Ele tem-na?) pois o barulho era mais que muito: «deixem ouvir o senhor. A palavra do senhor!» e nascido do silêncio ou da obra do calhas todos fomos testemunhas da genuína e original fancaria santânica, servida por aqueles olhos de gazela, as palavras a sairem-lhe fáceis, como sempre. Tudo patacoada para chatear a molécula aos das facadas nas costas e bofetões no bebé da incubadora. Perdidos de riso com este caso sério, sei dizer-vos que, a pouco e pouco, o puto guerreiro calou, um a um, estes malteses pichelingues. E foi no silêncio da pensão que se ouviu a voz fina do Júlio, oracular: «olho vê, mão pilha!» Do Grego Gymnasión, com pigarro.

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

O Juvenal, esse grande vaticanista!

O Juvenal viu a Aura a brilhar no televisor mas fez-se de lucas. Quando aquilo se deu, ficou tudo à espera, mabecos em matilha: «então rapaz, em atrasado andaste a ver da Aura...» e o tipo Juvenálico? Moita carrasco, fazia-se lucas e nem um som. A luz da Aura, sombra de nada e nem a presença da Isaura, travessa de pastelada nas mãos e aquela expressão de puro gozo nos olhos, o picou: «Essa lambisgóia aí, faz tanta falta aqui como uma viola num enterro! Ó Juvenal, recorda-nos aí os teus tempos de vaticanista... que o foste, não foste?» Eu, armado em fino e aproveitando a boleia da febra, apressei-me: «E dos grandes, Isaurinha. Aqui onde o vês, o Juvenas foi um g’anda dum vaticanista!» Mas o nosso homem, nanja. Já a grulhada era de mais que a maltesaria era danada para falar ao molho. Um dizia que sim, o outro que não, eu ria, o Zé Quitolas gritava «vaticanista?! Mas que juliana vem a ser esta?», a Isaura explicava o inexplicável: «Qual juliana, homem, é de abóbora. Ó, senhores!» mas o Juvenal continuava como lagosta adormecida, todo ele, assim o pensávamos, era olhos para a Aura, até que foi o Dinis a dar-lhe com o cotovelo e foi-se a ver e o homem tinha perdido os sentidos, há minutos que estava para ali desmaiado e naquele estado o deixara a Aura e nós todos. Caraças! «Ó Grego, afinfa-lhe umas, anda com isso, ó lavascão!» Pois tratei do assunto como pude e, facto é que o Juvenal se recompôs e disse: «O quinto segredo de Fátima...» E todos: «O quinto?!», o tipo ergueu-se e falou como a tísica antes do badagaio final, salvo seja: «o quinto... porra. O quinto segredo é a conversão dos blogues em livros e dos bloggers em escritores e cronistas do Expresso, Público e DN, por esta ordem. Fogo!» E deixou-se cair outra vez, o diabo do Juvenal, grande vaticanista. Do Grego Gymnasión, lazarado.

Sábado, Fevereiro 12, 2005

É a vida!

Portugal em campanha eleitoral perde a cara de fastio e fica apanhadinho dos trópicos. É vê-lo, arre burrinho, a distribuir mimos e arreeirada e aqui, para que conste, nada de naturezas mortas embora tenhamos o Manuel Monteiro que é o mais sério candidato a Carmelinda Pereira da direita que ficou para semente, conforme se sabe. De resto, Deus tem falado, em privado, com Santana Lopes, Simone de Oliveira foi, por engano, ao gárdene-párti do inimigo, Garcia Pereira lidera a infantaria descalça e está à vontade para dizer que vira a Assembleia de pernas para o ar e isto visto no televisor da pensão da Isaura toma ares de ser mais velho que narizes. Ali fico a olhar, zaranza, o desfile de gigantones e janganas enquanto o Paulo repete que já o rolão tufa como se fossem todos precoces. O tanas, Paulito! Que não estamos aqui a falar do Zé-dos-anzóis e isto já só falta o Goucha a explicar os benefícios do processo democrático e não é que se dá a aparição do manequim de olhos balideiros e olha que canudo, perdi a toada. Falhei o ritmo da conversa e senti-me o pespego que sempre fui e declarei para quem me quis ouvir: «isto está tudo de banda como o Miranda» Ora acontece que este dito sentido saiu-me ao calhas tendo, no entanto, acertado no apelido do Paulito que é tipo de fel e vinagre: «Vai mas é caiar o tecto do Rossio!» disse-me o patarata. Ainda tentei compor o destroxo com uma graçola sobre o Aires Rodrigues mas a verdade é que de um lado se põe o ramo e noutro se vende o vinho e lá foi o Paulito, duro como cornos e cá estou eu nestes triquetroques da vida. Do Grego Gymnasión pois que tudo há-de ser vento!

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

O Grego errou!

A Onorina deu-me a volta ao miolo e, como de costume, fui um fraca roupa. Eu ali a vê-la passar, é como quem diz, a rebolar, caramba! E das festas, as vésperas que a dona perliquitetes enrolou a manta, levantou a cesta e mandou-me às ventas: «Grego, és uma natureza morta!» Viste-la tu, assim a vi eu. Maneira que, mal a diaba me falou à mão, agarrei-me ao blogue e dali passei-me para aqui, sozinho, da esquerda para a direita, o lápis da Maguir de São Romão em cima das fotografias da Onorina e debaixo destas, as da Marionela e ainda mais umas, poucas, da Isaura. Tudo às vistas da primeira que se enervou e com razão: «quem são estas deslambidas?! O que faço eu aqui no meio desta traquitaina?» E o que pode um homem fazer entre martelo e bigorna? Respondi: «tem juízo, são apenas documentos!» Ora toma e entrei de cano, claro! Adeus Onorina, olá post mai’lindo que não me dás réplica ou tréplica, entras mudo e sais calado e, desta feita, meio enlabirintado nas redes das meias dela – que desperdício! – aqui levo boa parte das minhas horas a escrever à família que já assim falava o augusto Augusto enquanto varria a parada do quartel e desde esse tempo que levou maré de rosas. Desapareceu sem deixar rasto e raios partam a Onorina que me deixou para aqui a morangar, nem peixe nem carne, nem chus, nem bus. Para aqui a olhar para a mesa como parvajola que sou, um natureza morta. Que sou eu sem tema fosfórico? Da direita para a esquerda, a minha mão, o meu corta-unhas e o telefone ligado à espera, paspalhão, que a voz da Onorina me faça perder o fio à meada desta rede. Do Grego Gymnasión a pensar que se benze enquanto parte o nariz.

Sábado, Fevereiro 05, 2005

Leva-arriba! Com cautela

Esta manhã, gritava-me a Beatriz, papelada na mão e a mão a bater no peito: «Ó senhor Grego, eu dou a cara pela minha garoupa. Olhe-me aqui a origem desta perfeição, aqui onde vê, isto é mas é a Miss Universo» E perante aquela fortaleza, pois comprei-lhe o peixe que trazia registo carimbado pela lota de Cascais. De caminho, pelo talho do Júlio, levei nas guedelhas novamente: «Compreenda o senhor Grego que vão os bifes com bilhete de identidade que estes têm cara e nome.» E quando me pus na papeleta li, claramente lido, Fifi e já com a cabeça a apanhar bonés repeti: «Fifi?!» Era o nome da vaca, pela minha saudinha se a vaca não era a Fifi. Para ser sincero, a nova caiu-me na fraqueza e levou-me a este descaminho. Serve a de hoje para esclarecer, aqui, umas velhacadas na blogoesferovite. Acontece, caras blogocoisas e caros blogocoisos que os nomes das pessoas interessam e muito para evitar rexoxós e poder berrar como a outra, enfim, de mão tuc-tuc na tecla e a tecla tac-tac nos caracteres: «que eu cá, dou o nome e dou a cara, seus fracolas!». Assim, sabe-se que quem assina José Pacheco Pereira, O Abrupto é, na realidade, Sttau Monteiro (vivo nos nossos corações!) e que a Carla Quevedo se chama, na vida real, Odete (o apelido é que se me varreu) já o Mexia é nick de Jorge Letria e o Viegas que assina Viegas, poça, o Viegas só pode ser Viegas porque o Flaubert, no interim, criou o Bouvard e Pécuchet. Agora imaginem, daqui por uns tempos, um puto daqueles muito espertos a sacar daqui, precisamente do caneco do vosso criado Grego, informação deste calibre (sim, que os blogues farão parte das aulas de moral e religião). Estão a ver o madraço na escola a debitar, nas bochechas da professora e dos colegas, que o Abrupto do Sttau e a Bomba da Odete foram marcos e que o Barnabé, para que conste, era escrito, de cabo a rabo, pelo Eduardo Coelho com a Calhau que levou com o tipo, coitada, tal e qual assim, e cito-o: «Lanço-me em direcção a ti como num trapézio em que espero que as mãos de um outro me segurem. Se um dia não estiveres, podes ficar com as minhas mãos depois da queda - é preciso que alguém te percorra os cabelos com os dedos» Catatau! (intervalo para publicidade, pois, segundo se sabe, a Calhau sobreviveu ao trapezista e ficou-lhe mesmo com as mãos) E agora, antes que se faça tarde vamos lá a acabar com este fragatear de interactividade. Nunca o Sttau Monteiro escreveria O Abrupto ou eu não me chame Grego Gymnasión e seja já francês se isto são coisas que se digam! Mas quem não tem muita ponta por onde pegar, fala do que pode e a mais não é obrigado e isto, para variar, é tudo trinta e um de boca. Do Grego Gymnasión, triforfai.